CBS de 11,3%: por que sua empresa precisa do contador para se preparar para a Reforma Tributária

A alíquota de referência proposta para 2027 acende um alerta, especialmente para empresas de serviços. Entenda por que o impacto dependerá dos custos, dos créditos tributários e do planejamento de cada negócio.

A Reforma Tributária está entrando em uma fase decisiva para as empresas brasileiras. Em 28 de outubro de 2026, o Tribunal de Contas da União (TCU) aprovou o cálculo de uma alíquota de referência de 11,3% para a Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), tributo federal que substituirá principalmente o PIS e a Cofins. A proposta será analisada pelo Senado Federal.

O percentual ficou acima da estimativa de 9,21% divulgada anteriormente pelo Comitê Gestor do Imposto sobre Bens e Serviços. Caso a referência de 11,3% seja confirmada, a soma com a projeção de 18,7% para o Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) poderá levar a alíquota de referência do IVA dual a aproximadamente 30%.

É importante fazer uma distinção: uma alíquota de referência maior não significa, automaticamente, que todas as empresas pagarão mais impostos. O resultado dependerá das regras aplicáveis a cada atividade, do regime tributário e dos créditos que poderão ser aproveitados.

É justamente por isso que o empresário precisa olhar além do percentual anunciado — e contar com o apoio do contador para entender o que pode mudar na prática.

Por que a mudança pode afetar as empresas de maneiras diferentes?

O novo sistema foi estruturado para permitir o aproveitamento de créditos tributários ao longo da cadeia de produção e comercialização. Em termos simples, uma empresa poderá descontar determinados tributos pagos nas aquisições utilizadas em sua atividade, conforme as regras aplicáveis.

Isso significa que duas empresas com faturamento semelhante podem ter resultados diferentes diante da nova tributação.

Uma indústria, por exemplo, pode realizar compras relevantes de matérias-primas, energia e equipamentos que gerem créditos. Já uma empresa de consultoria pode concentrar grande parte dos seus custos no pagamento de salários, que não geram créditos de IBS e CBS.

Por isso, não basta multiplicar o faturamento pela alíquota divulgada. É necessário entender a estrutura de custos e identificar quais despesas efetivamente poderão gerar créditos.

Por que o setor de serviços merece atenção especial?

Empresas de serviços intensivas em mão de obra estão entre as que precisam avaliar cuidadosamente os possíveis efeitos da mudança.

Escritórios de consultoria, agências, empresas de tecnologia, prestadores de serviços profissionais e outros negócios cuja principal despesa é a folha de pagamento podem enfrentar um desafio específico: salários e encargos da folha não geram créditos de IBS e CBS.

Isso não significa que todas essas empresas terão aumento de impostos. O resultado dependerá de fatores como o regime tributário, as despesas que permitem créditos, as regras específicas da atividade e a forma de apuração.

O risco está em tomar decisões com base apenas na alíquota nominal, sem calcular o impacto efetivo sobre o negócio.

O que o contador precisa analisar?

A preparação para a Reforma Tributária vai além de acompanhar notícias ou atualizar sistemas. O contador pode ajudar a transformar as novas regras em informações úteis para a tomada de decisões.

Entre os principais pontos que merecem avaliação estão:

1. Regime tributário

É necessário verificar como as novas regras afetam a empresa em seu enquadramento atual e, quando aplicável, comparar cenários. Uma eventual mudança de regime não deve ser decidida apenas pela alíquota: precisa considerar a carga tributária total, os créditos, as obrigações e as características da operação.

2. Despesas que podem gerar créditos

O levantamento das compras de mercadorias, insumos, energia e serviços utilizados na atividade ajuda a estimar o potencial de aproveitamento de créditos. Também é importante verificar as condições legais para cada tipo de aquisição.

3. Formação de preços

A empresa precisa simular como diferentes cenários tributários podem afetar o custo de seus produtos e serviços. Dependendo do resultado, poderá ser necessário rever preços, negociar com fornecedores ou buscar ganhos de eficiência.

4. Margem de lucro e fluxo de caixa

Se parte do custo tributário não puder ser compensada por créditos nem repassada ao cliente, a margem poderá diminuir. O planejamento financeiro permite antecipar esse risco e avaliar alternativas antes que ele comprometa os resultados.

5. Contratos comerciais

Contratos de longo prazo, com preços fixos ou sem mecanismos claros de reajuste, merecem atenção. A empresa deve avaliar se as condições atuais continuam sustentáveis e se há espaço para renegociação.

6. Documentos fiscais e sistemas

A transição também exige atenção à emissão de documentos fiscais, ao cadastro de produtos e serviços, à integração entre sistemas e à qualidade das informações contábeis. Dados incompletos ou classificados incorretamente podem dificultar a apuração e o aproveitamento de créditos.

O contador pode ajudar a decidir se vale a pena mudar de regime?

Sim, desde que a análise seja individualizada e baseada em simulações consistentes.

Uma empresa que hoje está no Lucro Presumido, por exemplo, não deve concluir que o Lucro Real será melhor apenas porque permite o aproveitamento de determinados créditos. É preciso comparar os efeitos tributários e financeiros de cada cenário, considerando receitas, despesas, estrutura operacional e regras aplicáveis.

Da mesma forma, empresas do Simples Nacional precisam compreender como as opções previstas na Reforma Tributária podem afetar seus próprios tributos e a relação comercial com clientes que aproveitam créditos.

A melhor escolha não é necessariamente a que apresenta a menor alíquota aparente, mas aquela que oferece o resultado mais adequado à realidade da empresa, dentro da legislação.

O que o empresário pode fazer desde já?

Mesmo enquanto a definição da alíquota de referência passa pelas etapas previstas, existem medidas que podem começar imediatamente.

  • Reunir os dados financeiros: organizar faturamento, despesas, folha de pagamento, compras e contratos.
  • Mapear os possíveis créditos: identificar as aquisições que podem gerar créditos e verificar as condições para aproveitamento.
  • Simular cenários: comparar diferentes hipóteses de tributação e seus efeitos sobre custos, preços e margens.
  • Revisar contratos: localizar acordos que possam precisar de renegociação ou de mecanismos de reajuste.
  • Preparar os sistemas: conversar com a contabilidade e os fornecedores de tecnologia sobre as adaptações necessárias.
  • Manter acompanhamento profissional: revisar as projeções à medida que as regras e os parâmetros oficiais forem definidos.

O objetivo não é tomar decisões precipitadas com base em uma alíquota ainda sujeita à etapa de definição, mas evitar que a empresa deixe para se preparar quando o prazo estiver próximo.

Reforma Tributária: informação sem planejamento não basta

A discussão sobre a CBS de 11,3% mostra que a Reforma Tributária não é apenas uma mudança na forma de calcular impostos. Ela pode influenciar a formação de preços, a escolha de fornecedores, a rentabilidade, os contratos e as decisões financeiras das empresas.

Nesse cenário, o contador assume um papel estratégico. Além de cumprir obrigações fiscais e contábeis, pode ajudar o empresário a interpretar as mudanças, simular cenários, identificar riscos e tomar decisões fundamentadas nos números do próprio negócio.

O empresário não precisa esperar todas as definições para começar a se preparar. Precisa, porém, evitar decisões baseadas em estimativas genéricas.

O próximo passo é conversar com o contador, revisar a estrutura financeira da empresa e construir um planejamento que possa ser atualizado conforme as regras da Reforma Tributária forem consolidadas.

Fontes para consulta

Nota editorial: a alíquota de 11,3% é apresentada neste texto como referência aprovada pelo TCU e encaminhada para a etapa de definição pelo Senado, conforme a reportagem de 29 de outubro de 2026. Recomenda-se verificar sempre, se houve atualização oficial.

 

Autor: Rodrigo Studio

Recommended Posts